1.2. O INTERESSE AMBIENTAL

O arquipélago dos Açores possui um conjunto de áreas classificadas pelo elevado valor ambiental e que fazem parte da Rede Natura 2000. No Parque Marinho do Canal Faial-Pico existem 3 dessas áreas classificadas que aliam o elevado valor ambiental à elevada acessibilidade: Monte da Guia, Baixa do Sul e Ilhéus da Madalena.
As propostas de gestão para as áreas do Canal avançadas pelo Departamento de Oceanografia e Pescas da Universidade dos Açores (disponíveis em http://www.macmar.info), incluem a criação de um Parque Marinho, cujo o respectivo ordenamento visa a moderação da intensidade das actividades extractivas que permitam uma maior sustentabilidade e rendimento a longo-prazo.
É determinante, para uma boa absorção colectiva do interesse das medidas, promover actividades não extractivas que realcem a importância da área. Apenas assim, o cidadão comum poderá envolver-se e engrossar as fileiras dos que, informadamente, pensam que há realmente um património ambiental digno de ser conservado e protegido.
 
No futuro Parque Marinho do Canal Faial-Pico há um conjunto ímpar de valores biológicos, geológicos e culturais que urge preservar. Para além dos relacionados com a observação de cetáceos e os desportos náuticos, há diversos valores ambientais intrinsecamente ligados ao mergulho com escafandro autónomo. Neste contexto, há diversos locais paradigmáticos para esta actividade:
 

  • O Ilhéu Negro, com a sua gruta, na entrada da Baía de Porto Pim, agrega uma comunidade de aves marinhas, garajaus-comuns, que, desde que estejam fora da época de nidificação, podem ser observados sem constituir uma ameaça para a preservação da espécie. Mas esse é apenas o início do mergulho. Dentro de água é possível ver raias no fundo arenoso mais generalizado. Ainda sobre a areia, perto do ilhéu, podem-se observar as lutas territoriais das solhas ou as escavações dos salmonetes, sempre associados com os restantes peixes oportunistas, que tentam usufruir de uma refeição gratuita. O ilhéu em si parece um polvilhado de pequenas delicadezas que povoam a rocha aglomeradas por naipes de acordo com quantidade de iluminação presente. No meio da fauna e flora aparece uma ou outra moreia com o seu ar falsamente ameaçador. Perto, a cinco minutos de natação está a Gruta do Ilhéu Negro. Nessa cavidade é possível, muitas vezes, observar um cardume de encharéus que aproveita a escuridão da gruta para descansar ou alimentar-se de pequenos crustáceos.
     
  • A Vertente do Tio Almeida é uma encosta de elevado pendor que termina num fundo arenoso perto dos cinquenta metros de profundidade. Perto do fundo podem-se ver das maiores aglomerações de uns pequenos peixes rosa com o nome canários-do-mar. Os machos desta espécie possuem uma contrastante cauda amarela que já valeram diversos prémios Fotosub, dada a sua enorme beleza. Na vertente é possível ver diversas pequenas cavidades com cardumes de foliões.
     
  • A Gruta Profunda do Monte da Guia constitui um dos mergulhos mais difíceis e perigosos desta área e provavelmente possui os mesmos galardões entre o conjunto de mergulhos efectuados turisticamente nos Açores. É uma incursão que está no limiar do mergulho técnico e deve ser acessível apenas a mergulhadores experientes. A entrada na gruta dá-se aos 36 metros de profundidade, o primeiro percurso é de 50 metros com pendor basicamente horizontal. Já no seio da montanha o pendor começa a ser francamente ascendente até chegar à superfície. Numa original bolha de ar, o mergulhador fica no meio da montanha, dentro do Monte da Guia. A descida inicia-se continuando para Oeste até ver a luz do dia, do outro lado do Monte, através de uma estreita frincha, aos 10 metros de profundidade. As sequentes descidas e ascensões fazem deste mergulho um perigo. No entanto, os contrates, fauna e luminosidade proporcionados pela gruta tornam o local num dos locais com maior potencial fotográfico.
     
  • A Entrada das Caldeirinhas, em pleno limite da reserva integral, associa uma encosta de elevado pendor, cheia de pequenos organismos com fauna atlântica. Não é raro observar tunídeos nesta zona. No final do mergulho, nas zonas menos profundas da entrada das Caldeirinhas vêem-se as algas a dançar orientadas pelas correntes que entram na zona protegida.
     
  • As Caldeirinhas constituem uma das raras zonas de reserva integral de Portugal e a única dos Açores. Por esta razão e porque no interior decorrem experiências científicas sensíveis é nosso crer que esta zona não deve ser utilizada para o mergulho com escafandro autónomo excepto em situações de elevadíssimo interesse que nem a realização do Fotosub justifica.
     
  • A Ponta da Cabra, é a zona do Monte da Guia em que habitualmente se atingem as profundidades mais elevadas. O facto do fundo ultrapassar os cinquenta metros permite aos mergulhadores, com elevado nível de segurança, atingir patamares onde se pode ver fauna e flora específica. Progressivamente as comunidades de algas vão sendo substituídas por invertebrados, sendo o mais espectacular, provavelmente, o coral-negro. Estes arbustos subaquáticos constituem relíquias que urge fotografar. A sua beleza é apenas comparável é riqueza e interesse biológico da fauna que albergam.
     
  • A Grutas Gémeas do Monte da Guia estão viradas para Sudeste. Estas irmãs, separadas à nascença, tiveram uma ontogenia tão diferente que, hoje em dia, mergulhar numa sem visitar a seguinte é como perder metade do potencial do mergulho. As grutas, durante os meses mais produtivos do ano, enchem-se de pequenos crustáceos que são dilacerados pelas cavalas que aí se vão alimentar. As paredes das grutas possuem um degradé que começa com as algas de tons verdes, castanhos e vermelhos à entrada, que são substituídos pelos amarelos e outras cores imprevisíveis das esponjas no seu interior.
     
  • A Baía dos Radares tem o seu limite mais profundo já depois dos trinta metros. Aí jaz um antigo navio que transportava loiça. Do navio em si apenas resta uma pequeníssima parte da ossada onde, insistentemente, se abrigam rocazes. Este peixe, também um vencedor recorrente dos Fotosub, presta-se a aproximações graças à confiança que deposita no seu mimetismo cromático e de textura. Não imagina o peixe que este deixa de ter qualquer eficiência quando iluminado por uma lanterna, para sorte dos fotógrafos. A encosta não possui nesta baía um pendor tão elevado como nos mergulhos anteriores. Isto dificulta o acesso ao fundo, mas, por outro lado, aumenta o tempo e o espaço disponível a cada profundidade, elevando a hipótese de se obter a fotografia que se planeou.
     
  • A Baía de Entre-Montes é o último mergulho desta sequência em torno do Monte da Guia. É um mergulho que se inicia habitualmente a juzante da corrente, sendo que esta varia de acordo com a maré prevalecente. A embarcação de apoio tem, por esta razão, de estar particularmente atenta e verificar onde irão emergir os mergulhadores. É um mergulho particularmente indicado para quem procura espécies de baixa profundidade, para quem procura as interacções entre as espécies da zona subtidal como vejas. Aqui podem-se ver estes peixes em permanentes patrulhamentos, e ciclicamente, ao passar das pachorrentas salemas, pastando no meio das algas.
     
  • A Baixa do Sul é um dos ex-libris do mergulho nos Açores. O contraste entre o fundo azul-escuro e o azul claro do oceano aberto encontra-se nesta área. Os peixe-cão de grandes dimensões que passeiam com olhar curioso em volta dos mergulhadores complementam o colorido especial que esta baixa tem. Um ou outro mero não esgotam as surpresas que podemos aqui encontrar. Com sorte, quando olharmos para cima, lá está um peixe-lua, um atum de grandes dimensões, ou mesmo jamantas. Apesar da limitação de dever apenas ser visitada no estofo da maré, a Baixa do Sul tem sempre uma qualquer boa surpresa para o mergulhador com escafandro autónomo.
     
  • O interior dos Ilhéus da Madalena são o que resta de uma antiga Caldeira. Este vulcão inanimado é hoje o centro de actividade de milhares de pequenos organismos. Entre estes os que o mergulhador tem mesmo de procurar são as anémonas que se adensam nos planos negativos das maiores rochas. São tapeçarias de coral-pérola e parazoantos que enchem as objectivas, os olhos e alma de quem as descobre. Depois de algum tempo a olhar para estas enormidades da beleza natural, vale a pena ficar sobre o fundo e descansar a vista nas rainhas e peixes-rei que certamente por ali nadam.
     
  • O Lado Sul dos Ilhéus da Madalena é o último mergulho Natura 2000 que iremos fazer neste périplo pelo futuro Parque do Canal Faial-Pico. Imagine-se um mar de areia aos 12 metros de profundidade. Neste mar de areia temos dezenas de ilhas e ilhéus com formas das mais rocambolescas até às mais normais. Consegue imaginar? Então parabéns! Está no lado Sul dos Ilhéus da Madalena. Não espere que o fundo arenoso seja minimamente monótono. Para além das previsíveis solhas e salmonetes, aqui pode encontrar, no meio da areia, ninhos de peixe-porco. Não os incomode porque, como qualquer pai dedicado, o peixe irá ficar perturbado. Mas observe com atenção como o macho e a fêmea se trocam na vigilância e arejamento da prole.

Este invejável conjunto de imersões, possível apenas no Parque Marinho do Canal Faial-Pico, é uma realidade muito pouco recorrente a nível nacional. A urgência na sua divulgação está directamente relacionada com a consciencialização pública da importância da sua conservação. Parece-nos que a aliança com um evento como o FotoSub não é apenas óbvia como obrigatória.

> O interesse turístico

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